Alex Hearth: Mea Culpa II – A última morada

Eu gostaria de dizer que o céu estava nublado e triste naquela manhã, mas seria mentira. Aquela era uma manhã alegre e ensolarada. Só a pequena fila do cortejo que descia os degraus da capelinha no alto do morro estava triste.
Éramos eu, Beatrix, a mãe da menina morta – ainda com os braços enfaixados por causa da tragédia de dois dias atrás – e a avó da criança. Éramos dois de cada lado, carregando o caixãozinho branco. Não pesava muito, é verdade, mas algo nos oprimia violentamente, a ponto de andarmos todos de ombros baixos e olhos no chão.
O cemitério era todo em ruas de paralelepípedo ladeadas por colinas verdes donde saltavam, aos salpicos, as sepulturas, como se fossem flores de mármore. Era um lugar bonito a despeito de sua mórbida serventia.
Deixávamos atrás de nós um conjunto de simples e austeras capelinhas brancas, com seus pináculos e cruzes apontando para o céu um tanto raivosamente, indignadas com a injusta tarefa de receber os mortos. Era como se ameaçassem a despótica justiça divina, que, alheia e distante, decide quem vive e quem morre e relega a estas pequeninas capelas a missão de dar aos vivos um último consolo. Consolo sempre insuficiente…
Nos dirigíamos para a única construção que não estava no alto de uma colina. Um bloco quadrado e negro, com pilastras em estilo grego e estátuas de animais, do tipo que se vê em brasões de armas daquelas famílias com algum fumo de nobreza. Aquelas estátuas e vasos gregos davam uma ideia do tipo de pessoas que ali descansava.
Eu já havia estado ali por duas outras vezes, enterrando meus pais, mas pela primeira vez achei que o suntuoso e enorme mausoléu era uma fera em ardósia negra, afrontando os túmulos mais simples que o espiavam de cima das colinas em volta. Senti-me ridículo e mesquinho.
A construção nos olhou de seu trono magnânimo e eu a encarei de volta. Querendo ou não era a minha história que ali estava; história que eu queria muito deixar para trás, mas que insistia em se insinuar e influenciar minha vida.
Subi os dois degraus que me levariam ao portão duplo, porém estreito e vertical do mausoléu, saquei do bolso do terno uma chave redonda e grande e inseri na fechadura. Não era possível ver nada lá dentro, o espaço entre as barras do alto portão era preenchido com vido preto e fumê.
Girei a chave e a fechadura fez um certo barulho, abriu ao meu gesto com certa hesitação. Esperei o bafejo de poeira e os cheiros de morte que ninguém quer sentir, mas ele não veio, ao menos não com a intensidade esperada.
Os funcionários estavam lá, trabalhando no lugar que seria a última cama da menina.
Seguimos com o cortejo humilde e pousamos o caixão no lugar. A mãe da menina quebrou o silêncio com palavras fanhas por causa do choro derramado desde nosso período na capela até onde estávamos agora. Ela fungou e disse:
– Ao menos aqui é bonito, sr. Alex…
Eu me empertiguei e Beatrix, sentindo meu desconforto, enlaçou os dedos em torno dos meus. Hesitante, eu disse, após um silêncio curto em que busquei as palavras:
– Era o mínimo… – senti a voz embargar, eu não havia chorado até então – que eu podia fazer…
– Mas o senhor nem nos conhecia – retrucou a mãe da menina morta. Os dedos de Beatrix quase esmagaram os meus quando eu olhei para ela e ela viu as lágrimas nos meus olhos – apareceu no hospital como um bom samari…
– Eu te disse que fui ao hospital por causa da notícia no jornal, mas – interrompi-a – eu menti. Há algo que você não contou à imprensa… Nem os funcionários do plantão… – Me virei para ela e enfrentei aqueles olhos vermelhos e chorosos com os meus – O arcanjo que você chamou de Miguel.. – e nesse instante eu vi os olhos dela se arregalarem – Sou eu. Me perdoe!
Minhas mãos estavam nos ombros daquela mulher, meus olhos voltados para baixo, para olhá-la face a face. Vi passar por aquele rosto em um instante um milhão de coisas. Não pude mais conter minhas lágrimas e nem minha culpa, mas a reação seguinte da mãe inconsolável marcou para sempre a minha vida. Ela, pequenina abraçou-me com força e consolou-me quando nada podia consolá-la.
Choramos juntos um rio em homenagem à pequena que agora descansaria entre os Hearth.

Por: José Nilson Jr.
11/10/16
(Texto Registrado)

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