Alex Hearth – Mea Culpa

Não havia nada que eu pudesse ter feito para salvá-la. Depois do primeiro passo não havia mais volta…
Agora eu estava no quarto, meio perdido em pensamentos, sendo comido vivo pelo demônio da culpa. As paredes me oprimiam; ser esmagado por elas era mera questão de tempo. Eu me sentia sufocar, esmagado pelo teto que, definitivamente, descia sobre minha cabeça. Eu não conseguia respirar, algo pesado comprimia meu diafragma, impedindo-o de fazer o seu movimento natural, mas ao olhar por sobre o meu peito eu só via a escuridão que, faminta, engolia todo o quarto.
Só a culpa por eu ter falhado. Era óbvio. Óbvio que essa coisa de vigilante alado noite adentro ia machucar alguém além de mim. Alguém que não se cura como só eu posso, alguém inocente. Uma criança inocente.
Era uma noite normal: um pouco fria, enevoada e movimentada lá embaixo e as pessoas simplesmente seguiam as suas vidas desatentas. Como quase sempre, ninguém olha para cima (estou um tanto alto demais pra fazer sombra no asfalto), mas eu os estou olhando; ouvindo, apesar do barulho do vento frio passando pelas minhas orelhas, cortado por mim mesmo em meu voo de vigília.
Ouço gritos femininos. É uma mulher adulta e ela grita com certo desespero; pânico talvez, mas é difícil saber devido à altura. Descido descer um pouco, já que só vejo prados verdes e enevoados lá em baixo, mas eu não estou no interior ainda. Vejo luzes e casas, há uma vizinhança para assistir ao que quer que esteja acontecendo.
Agora eu já consigo ouvir mais precisamente a voz da moça e, infelizmente, mais do que isso.
– Não!… Não!… – grita a mulher antes de correr para fora da casa. Ela tem sangue nos braços e mãos, são cortes de faca, cortes de alguém que tentou se defender.
No instante em que ela sai da casa, deixando atrás de si uma trilha de sangue e a porta branca entreaberta, eu planto meus pés no chão, o que faz algum barulho e atrai a moça desesperada para a minha figura: asas branco cinzento, tamanho maior do que um homem normal (mesmo um dos altos) e aqueles olhos vermelhos e assustadores, evidenciados numa noite escura.
– Arcanjo Miguel… Deus ouviu minhas preces… – e a voz dela foi morrendo e fraquejando enquanto ela tentava articular as palavras no meio daquela situação caótica – … nha filha… ainda tá… – E desmaiou. Ela tentou dizer minha antes, mas a primeira sílaba morreu antes de sair e só os lábios mexeram, dando à moça feições de peixe asfixiado.
Percebi, ainda com a mulher desfalecida nos braços, uma voz embriagada vindo de dentro da casa e gritos infantis entremeados de choro. Formei sem dificuldade o quadro que encontraria lá dentro. Um bêbado agredindo mulher e filhos é uma tragédia corriqueira e aceitável, porque não era apenas eu que ouvia àquilo. Havia toda uma plateia passiva de ouvintes ansiosos pelo desfecho.
Deitei a mulher na grama e corri, quase voei para dentro da casa. Encontrei lá dentro o que esperava, mas não havia nada que pudesse me preparar para aquilo: um homem, jogado rum sofá descuidadamente, admirava – os olhos fitos e um enorme par de pupilas pretas – a faca com o sangue da moça. Um sofá menor formava com este primeiro um ângulo reto e nele eu vi uma garotinha morena de cabelos escuros e cacheados sentada em posição fetal. A menina chorava, mas não deu mostras de perceber a minha entrada, parecia em choque.
Uma mesa de centro em formato retangular, mas com as bordas arredondadas e tampo de vidro em cima e embaixo, jazia tombada a frente dos assentos, os vidros de seus tampos estilhaçados no chão junto com restos do que foi um vaso de plantas havia poucos minutos.
A TV, ligada num programa de esportes qualquer, soava estática e exibia fantasmas, o que dava um aspecto de filme de terror a tudo aquilo; só que o verdadeiro horror ainda viria…
Demorou menos de um segundo para que meus sentidos interpretassem toda a merda diante de mim, mas o cérebro viciado do marido agressor deve ter achado que eu era uma alucinação de sua mente insana. Pior: supôs que eu fosse um anjo enviado dos céus ou qualquer asneira religiosa que os líderes inventem para manter as pessoas na rédea curta.
– Não! Senhor, não me leva! Caralho! Deus!… – Ele começou a gritar, finalmente desviando olhos loucos da lâmina ensanguentada e olhando pra mim. Eu interrompera meu impulso de velocidade, (a porta era mais baixa do que eu) e me abaixei para passar, além de fechar bem as asas sobre o peito, cabendo assim na moldura da porta.
Não soube o que fazer.
Quando alguém está assaltando alguém, você desmaia o assaltante e o leva para a delegacia mais próxima, deixa o desgraçado na porta e some. A chance de acharem que ele está drogado e vendo coisas é grande, então fica tudo certo, mas naquela noite eu fiquei perdido. O infeliz estava mesmo drogado e não ia adiantar nada eu encher ele de porrada. Ela já tinha machucado a mulher e deixado a filha em choque. Aliás, por que é que um bosta desse tipo não nasce sem saco?! Se eu batesse nele acho que só ia piorar as coisas para a menininha.
Durante o meu momento infinitesimal de hesitação, ele se precipitou sobre a própria filha em choque e pôs-lhe a faca na garganta. Ele a fez endireitar-se, postou-a diante de si e, por cima do ombro dela, passou a mão trêmula com a qual sustentava a faca… como é miserável o ser humano. Em seu momento de pânico o miserável não hesitou em usar a própria filha de refém. Não interessa que ele pensasse que eu era a ira divina.
– Ei parça… Fica parado aí, de boinha, se não tu vai tê é duas alma pra levá pru inferno hoje… Tu num vai querê essa criança na tua cabeça a noite, né não?
Estaquei. Senti medo, meu coração disparou. Eu precisava acalmá-lo antes que aquela mão trêmula causasse uma tragédia, então eu ergui a mão em gesto de rendição e falei:
– Calma. Ela é sua filha… – Nem pude terminar o que ia dizer. Minha voz saiu distorcida, gutural, como se tivesse sido emitida por um vocalista de black metal.
O pânico virou terror na alma do facínora e a minha vista se encheu da cor vermelho berrante quando a tragédia que eu queria evitar aconteceu.
No segundo seguinte e só vi sangue. Sangue dela. Sangue dele. Sangue no meu punho: da cara dele. A mandíbula do desgraçado partiu-se no primeiro golpe e ele desmaiou.
Pressionei o pescoço dela com firmeza, o que me deixou mais vermelho como todo o sangue.
Saí dali com ela no colo, peguei também sua mãe ainda desmaiada que eu deixara na entrada e voei. Voei o mais rápido voo desde que me tornei nisto.
Tenho certeza que os médicos e enfermeiros do turno da noite nunca viram um anjo ensanguentado, todo desespero, entrando num hospital, e sem se importar de arrebentar a cara porta com sensor de movimento no processo, nada delicado, de aterrissagem.
Os pacientes e funcionários em pânico, minha voz distorcida não ajudava, mas eles entenderam…
Saí dali e voei de volta para casa, a culpa já começando a me roer. Não sei se sou o Dante de Beatrix ou o próprio Diabo.


Por: José Nilson Jr.
03/09/16
(Texto registrado)

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