A Primavera na Selva de Concreto


A cidade não acolhe ninguém. Disse o meu professor enquanto falávamos sobre a dicotomia do campo e da cidade.
Normalmente eu concordaria com ele. No geral, eu concordo com ele! A cidade do Rio de Janeiro nunca me acolheu, porque, entre outras muitas coisas que se expostas aqui findariam numa lista enorme, ela é uma cidade para carros, não para pessoas. Nunca encontrara exceção, até a primavera deste ano.
Sou uma pessoa bastante sensível à natureza, eu e Gaia temos um laço que gosto de cultivar. As árvores, a água e mesmo o fogo sempre me deixaram bem à vontade; em paz até.
Qual não foi a grata surpresa ao voltar para a UERJ e descobri-la cheia de natureza em meio àquela arquitetura feia, opressiva e hostil?
A universidade que encontrei não parecia a que eu mesmo visitara havia pouco tempo e que começava um processo de ruína. Estava suja, fétida e oferecia riscos à saúde e à segurança.
Ela, no entanto, resistiu; nós resistimos com ela. E as árvores, que sempre me recebem quando eu entro pelo portão 5, pareciam querer nos congratular pela teimosia. Eu as vi frondosas, cheirando e embelezando o lugar que, em tese deveria estar aberto a todos, mas que, para mim, sempre assomou diante dos meus olhos como um ente um tanto hostil. Um campus de concreto cinzento sobre o qual sempre se ouvem histórias ruins e de naturezas distintas.
Para mim escadas com degraus assustadoramente altos, elevadores duvidosos, ascensoristas paralisados e eu estudar no 11º andar são fatos mais assustadores do que quaisquer contos de horror uerjiano, embora isso seja assunto para outro texto… de volta à natureza!
Pareceu-me que a Natureza queria algo mais que nos parabenizar: ela queria que aprendêssemos, mas o que?
Ainda na primeira semana, numa quinta-feira apressada, enquanto eu fazia meu longo caminho até o portão 1 – porque o caminho acessível parece esquivar-se inconvenientemente da rota principal –, encontramos uma obra genial da natureza: uma teia de aranha envolvia todas as plantas e flores de uma determinada área, subindo e descendo, estrategicamente tecida.
Qualquer animal que ali pousasse em busca de néctar seria presa fácil para a nossa predadora esperta. Sagacidade às vezes é tudo de que precisamos para sobreviver. Sagacidade…
Num ambiente hostil a natureza me acolheu e, mesmo cansado e com pressa, não furtei de olhar as flores.
Hoje permito-me discordar do meu amigo e professor, ainda de mim mesmo, dizendo: a primavera na selva de concreto acolhe a todos. Hoje entendo Drummond. O Drummond de “A Flor e a Náusea”, sentado no chão da Capital Federal, este mesmo Rio de Janeiro à época, quando eram já 5 da tarde e o mundo parecia enjoado e com pressa. Eis Drummond acariciando uma flor feia e desbotada, mas que furou o asfalto.


Por: José Nilson Jr.
04/09/16
(Texto registrado)

Foto por: Agathe F. Ferreira

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