Alex Hearth – Beatrix

     A vida é uma tarefa densa e difícil para todos, sem exceção. Seja pessoa ou bicho, tenha asas ou não. Para mim não é diferente. 
     Nada, nunca, veio fácil para mim, ainda que eu tenha nascido numa família rica. Na verdade eu acho que isso só tornou as coisas piores. A riqueza, a morte prematura dos meus pais e a tutela financeira dos meus tios até que eu fosse legalmente capaz. 
     Essas duas pessoas deram a mim a vida que qualquer ser humano sonharia ter. Me cercaram de todo o luxo e de tudo que minha mente pré-adolescente desejasse. Eu, claro, adorava aquilo; me ajudava a preencher a lacuna que meus pais deixaram. Eu demorei a perceber que aquilo não era amor, mas sim uma maneira de me cegar para os seus planos de ficar com a parte dos meus pais nas empresas da família. Hoje chego a cogitar que a morte dos meus pais não tenha sido um acaso, uma tragédia perpetrada pelo fatum
     Três anos depois, já aos quinze, eu me achava capaz de enfrentar o mundo e vencê-lo. Eu lutaria com a lei e venceria. 
     Pff… Eu não conhecia o mundo.
    Ser um rico com consciência é impossível, mas eu achava que podia ser boa com as pessoas e manter minhas posses. O problema é que aquelas posses já não eram minhas e eu estava cega demais pelas baladinhas, festas do ensino médio e amigos para me importar. Foi a faculdade que mudou a minha vida.
     Meus tios sempre quiseram me afastar da área. O velho me dizia que eu não precisava trabalhar, que eles sempre fariam tudo por mim e eu realmente achava que fariam, mas eu não estudava exatamente por obrigação ou porque precisava, mas porque era um dos prazeres que eu tinha. Sempre gostei de aprender e meus pais incentivavam bastante essa minha avidez por conhecimento.
     Quando o destino os tirou prematuramente de mim, e depois que uma fase seguinte à morte deles na qual eu perdi o ânimo para todas as coisas e precisei de ajuda profissional passou, o prazer de aprender os fazia presentes em mim quando eu descobria algo novo. 
     Eu era curiosa a respeito dos fenômenos do mundo. Eu queria saber por que as coisas aconteciam e como elas aconteciam. Acabei indo estudar Física, mas foi a linguagem da Física que me fascinou. Larguei o bacharelado em Física e fui fazer Matemática. 
     Era uma situação esquisita, é estranho quando você não atende os padrões das pessoas. Elas olham para você, elas falam de você. Isso só foi piorando. Chegou ao clímax no dia em que eu disse para o meu tio que eu tinha conhecimento, idade e vontade de assumir os negócios dos meus pais. 
     “Acha que a faculdade te prepara pra lidar com o mercado, Beatrix? Você não tem estômago pra lidar com isso! Ser C.E.O de uma empresa não é trabalho pra mulher, menos ainda pra uma garota como você. Você pode continuar com suas festinhas e curtição! Nós amamos você, não precisa se preocupar! Nós te damos tudo, não damos querida?” 
    Meu tio falava por detrás da mesa de mogno da sala do presidente. Dava pra acomodar bem uma pessoa, talvez um casal, naquela sala enorme. 
      Me lembro que havia atrás da cadeira de meu pai uma estante e que tinha livros ali, meu pai gostava de ler quando tinha algum tempo e a estante era bem colorida, mas agora as lombadas dos livros eram da mesma cor vermelha e dourada. Só aparência. As mesas e cadeiras onde ficavam um secretário e uma assessora tinham sumido. 
     “Se quer trabalhar eu posso te dar um trabalho pequeno, pra você se sentir útil!” 
     Eu espero ter batido a porta bem forte, porque esse foi o último som que ele ouviu e eu desejei muito que esse som transmitisse todo a minha raiva. 
     Saí dali pisando firme e me recusando a deixar o aperto no meu peito virar lágrima. 
     “Senhorita Beatrix? Você está…” 
    Era a voz da recepcionista, mas eu já passava pela porta com sensor de movimento ao encontro da chuva lá fora. A redentora chuva numa tarde cheia de névoa e de céu cinzento. 

José Nilson Jr.

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