Alex Hearth ( Conto ) - Minha luta

  Mais um dia em minha rotina, ou melhor, mais uma noite... Tudo muito calmo hoje, estranho, mas verdade.
 Acabo de evitar que um garoto faminto acabasse com a vida ao tirar outra; isso me fez pensar a respeito do que sou, da minha missão, me fez pensar nela.
 Hum... - Estou agachado sobre o mirante de um dos muitos arranha-céus da cidade, daqui vejo toda ela em sua plena magnitude e mediocridade encrustada. 
 Já está mais que claro: eu devo ajudá-los, mas eu sou um anjo, não um vigilante! 
 Eu evito mortes, mas a cada uma que eu evito, outra acontece. Não sou onipresente afinal!
 Ainda sou um membro nobre do mundo, acho que posso ser mais que um vigia... 
 Se este garoto, que quase matou uma mãe de família vinda do trabalho de garçonete tarde da noite, estivesse cansado dos esportes próprios da idade, com a mente cheia dos deveres de casa que lhe cabem, com a barriga cheia com a comida que lhe é devida, eu não precisaria carregar uma senhora em choque até o hospital.... Ou quase...



Eu voo do meu “poleiro”, ainda estou a observar a cidade, tão envolvida em si mesma ela está; chega ao ponto de ninguém perceber a minha passagem... Não é como nos filmes de super-heróis. Ninguém olha o céu noturno...
  É. Essa coisa de anjo está me deixando mesmo mole, e talvez isto seja um sinal de que dentro do meu peito algo ainda pulsa...
  Como eu queria poder trazê-la comigo para o alto, voar acima das aves, das naves, transcender o espaço e o tempo com ela em meu braços!
  Eu pouso novamente em um prédio aleatório, mas o que eu vejo ao olhar para baixo me faz ver que a minha causa, mesmo que imposta, não é perdida e nem vã. Um casal. 
  Um jovem casal, que alheio a todo o resto se concentram neles mesmos, crendo que ninguém os vê.  Num mundo movido por luxurias, o que vejo é amor. Posso ouvir as juras, sei que são sinceras, de algum modo eu sei... O rapaz mantém as mãos enlaçadas com as dela, mantém os olhos presos nos dela... 
  Cara, deixa eu sair logo daqui, sabe!
  Os pombinhos salvaram a minha noite, e isso me lembra de que eu tenho que ver a moça que deixei no hospital...
  Não há  floricultura aberta a essa hora da noite, então eu pego flores de jardins pela cidade.
  Eu chego até o hospital, voo até achar a janela do quarto onde eu mesmo a deixei horas atrás, abro devagar e entro cuidadosamente.
  O ramalhete está na mesinha de cabeceira, junto com uma pena minha ( que eu peço a Deus que resista ao sol da manhã.)
  Por curiosidade eu pego a prancheta com o prontuario e de repente meu coração explode;  eu rio, me contenho pra não fazer barulho; uma satisfação tola me invade. Sou tomado pela alegria do dever cumprido, e pela primeira vez eu agradeço aos céus por ser o que sou, mesmo sem saber exatamente como me classifico. 
  Parece até que o filho que ela espera, e que pelo jeito não sabia existir, é meu.
  Eu volto ao meu apartamento e me jogo na cama. Espero ver minha amada em sonhos, e mais tarde contar-lhe sobre o que houve essa noite. 


Por: Nilson Souto Jr.
 ( textoo registrado)


P.S:A coluna mudou o colunista. Ficou diferente do que o Frog costumava fazer, mas espero que curtam. 
  Uma boa noite a todos!

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