Implacável destino

Sob o manto negro da noite, eu navego. Navego tendo as estrelas como guias e a lua como farol. Para onde? Isso nem eu sei…
Fico aqui olhando a lua e sentindo o navio balançar, mas minha mente não está onde eu quero que esteja.
Eu deveria estar focado na luta de amanhã, mas minha espada parece querer o conforto e a segurança de sua bainha e nada mais. Eu seguro a dobra do cabo entre as mãos, tentando pensar no combate, porém tudo o que vem a minha mente é pele… A pele da mulher por quem lutarei amanhã. Talvez seja por isso que estou tão apreensivo, talvez por isso eu tenha medo. Medo como nunca tive, medo de que minhas mãos não sejam fortes, meus pés não sejam rápidos… Medo de que meu sangue seja quente e de que eu sinta frio ao perdê-lo.
Eu não sei para onde vou: se para os braços de minha amada ou para os braços da morte.
Minha mente retorna aos últimos momentos que passei com ela. A última vez que a toquei, a última vez que a beijei, que brinquei com seus cabelos, que olhei em seus olhos, que disse: “eu te amo”.
Amanhã, quando o sol tocar a borda da terra com seus raios eu porei minha espada junto ao corpo, no laço do quimono, e caminharei para o que quer que o destino tenha reservado para mim.
O sol já está nascendo; eu posso ver a praia que me espera, posso ver o lugar onde ela está e isso só faz meu coração acelerar. Não, não é o medo que eu sentia ontem sob o olhar da lua, é ansiedade! A incerteza cedeu lugar a uma ansiedade incontrolável. Sinto a espada pulsar, logo seremos uma única vida lutando pelo direito de viver!
Eu desço do navio, piso na água fria do mar.
Caminho de encontro a um oponente invicto, cruel e resoluto: destino.
Prossigo sem olhar para trás, ouço apenas os brados que dizem:
– Boa sorte, amigo! Volte vivo!
E palmas de alguns que veem em mim uma força que eu não tenho, mas embalados por esses brados e salvas meus pés alcançam o calor das areias, já beijadas pelos raios do sol da manhã… E que manhã…
Estou enfadado de toda essa situação! Olho para frente, vejo o meu objetivo, meu oponente; o obstáculo a ser derrubado. Meu ombro ferido dói, eu tinha até me esquecido dele…
Não é momento de sentir dor, menos ainda para recuar…
Projeto meu corpo um pouco para frente, a mão direita alcança o cabo da espada e o joelho esquerdo, já habituado, se dobra de modo mecânico à frente do corpo, apoiando-o. A mão esquerda segura a bainha e a perna direita se alonga para trás, pois ela será a alavanca do meu movimento.
Meus olhos estão em meu adversário, ele também se posiciona.
Um segundo que parece eterno; um longo tomar de fôlego, nossos olhares se cruzam, e eu apenas sorrio.
Uma rajada de vento passa forte por nós e desprende a fita que amarra meu cabelo, eu o sinto deslizar pelas minhas costas, mas isso pouco importa agora.
Começo a puxar a espada; meus pés e pernas iniciam a corrida. A dor do meu ombro percorre todo o meu braço.
É tarde demais para voltar atrás…

~

O destino é imutável, mas eu lutarei para que ele se sujeite a mim. Por que? Cansei de ser levado pelo vento tal qual as folhas que caem no outono!
Por: José Nilson Souto Jr.
Texto registrado
24/07/2011

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